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A escrita somente adquire sentido se descodificada em fonemas, mesmo que num processo elaborado mentalmente, sem o uso de voz. As letras do alfabeto arábico são representações de notas sonoras. Parece-nos legítimo afirma que a comunicação humana é essencialmente fonética, cabendo a escrita representá-la graficamente. Entretanto, todos os textos escritos estão direta ou indiretamente relacionados ao universo do som. Longe de nós relegarmos o papel da escrito a um plano secundário. Ela está intimamente vinculada à fala e ambas constituem a linguagem. O que em semiótica os teóricos chamam de um continuum tipológico. Há mais semelhanças do que diferenças entre essas duas modalidades lingüísticas, apesar de cada uma delas possuir características que as particularizam. Existem textos escritos que se situam, no contínuo, mais próximos ao pólo da fala conversacional (bilhete, carta familiar, textos de humor, por exemplo), ao passo que existem textos falados que mais se aproximam do pólo da escrita formal (conferências, entrevistas profissionais para altos cargos administrativos e outros), existindo, ainda, tipos mistos, além de muitos outros intermediários. Quem sabe escrever amplia os limites do tratamento de linguagem, antes restrito à modalidade auditiva. A conexão entre fala e escrita aumenta a capacidade de comunicação, com benefícios muito maiores do que a ciência pode medir. Aprender a ler aumenta os estímulos visuais — inclusive na área visual primária do córtex, responsável por perceber fatores como cor, profundidade e distância. Quem sabe ler e escrever distingue jogos de linguagem que passam despercebidos pelos analfabetos, como a supressão de fonemas em uma palavra. Com a leitura o córtex auditivo também é mais “ativado”.
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Pelo fato da escrita ocupar proeminente posição na comunicação humana, especialmente nos últimos cinco séculos com a invenção da imprensa, e pela escassa reflexão sobre a comunicação falada é que estamos buscando conscientizar sobre a essencialidade dela na vida das pessoas. Nossa audição torna-se normalmente mais aguda quando não temos pitas visuais. Ainda assim uma pesquisa citada no livro ‘O Efeito Mozard’ de Dom Campbell revela que ouvir absorve em média 55% do nosso tempo de comunicação, enquanto o falar ocupa 23%, ler, 13%, e escrever  9%. A linguagem é tão predominantemente oral, que dentre as milhares de línguas que existiram, apenas cerca de 106 possuíam escrita suficientemente desenvolvida para produzir literatura. Das 3 mil línguas hoje faladas, somente 78, aproximadamente, têm, de fato, uma literatura. Quem usa uma língua escrita – o inglês, por exemplo – tem à sua disposição um vocabulário de pelo menos um milhão e meio de palavras, enquanto que uma língua exclusivamente oral não oferecerá ao falante mais do que alguns milhares. Fernando Pessoa  faz uma breve associação entre a palavra falada e a escrita. Ele afirma que a palavra falada é imediata, local e geral. A palavra escrita é mediata, longínqua e particular. Segundo Fernando Pessoa a palavra falada é um fenômeno social, a escrita um fenômeno cultural; a palavra falada um fenômeno democrático, a escrita um fenômeno aristocrático. A palavra escrita tem tudo que ser explicado, pois o leitor não nos pode interromper com o pedido de que expliquemos melhor. Comparativamente com a visão que tem um sentido direcionado, binocular, vemos como num cone com cerca de 180 graus de largura e 120 de altura, a audição é completamente esférica. Qualquer um pode colocar um som precisamente em três dimensões.
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O primeiro passa para ouvir bem é ouvir com admiração infantil, afirma Dom Campbell autor do livro ‘O Efeito de Mozart’. Os compositores são pensadores do som e o seu negócio são construir imagens auditivas. Eles trabalham os tons no ouvido da mente com a mesma exatidão com que os escritores trabalham as palavras. A palavra inglesa sound também significa sadio – um sinônimo para saúde e integridade – para indicar vitalidade básica e a fundação inabalável para tudo o que fazemos. São no sentido tanto de sadio, como no sentido de ser que tem a mesma raiz de som. Quando as coisas vão bem, estamos “sintonizados e em harmonia” com os outros e com o mundo à nossa volta. Nos relacionamentos esperamos “estabelecer certo tom”. Quando as coisas vão mal estamos “fora de sintonia e de sincronia” Podemos “orquestras um acordo” Desejamos ou evitamos uma “audiência” – da raiz áudio, ouvir. A palavra pessoa, persona no espanhol ou mascara pública (personagem), deriva da raiz grega per son, “o som passa pelo meio de”. Na língua inglesa fica ainda mais configurada a origem da expressa que é  person Ondas sonoras só se configuram como um som para as pessoas quando são percebidas pela audição entre 20 a 20.000 hertz, a partir daí os nossos ouvidos não ouvem, mas as vibrações sonoras não deixam de nos atingir.
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A comunicação oral se distingue por ativar os mais variados estímulos sensoriais que vão além da função de transmitir conteúdos, mensagens inteligíveis. A palavra falada e ouvida age no imaginário, ativa o repertório existencial da nossa memória armazenada dentro de determinados contextos. Pelo fato da voz emitir som que são vibrações físicas atingem não somente o nosso ouvido, mas o corpo todo. Embora na física o som não passe de uma vibração, para a psicologia é uma espécie de experiência que o cérebro extrai de seu meio ambiente. Nós absorvemos os sons, sejam notas musicais, palavras cantadas e a palavra falada, mesmo que sutilmente, altera a nossa respiração, nossa pulsação, a pressão sangüínea, a tensão muscular, a temperatura da pele e outros ritmos internos, promove a liberação de endorfina. O som emitido também pela voz humana afeta de forma sutil e nossa sensação de tempo e espaço e pode ser usada para agitar, acalmar ou modificar nosso ambiente. Segundo estudos do engenheiro e médico suíço, Hans Jenny que nos ajudando a entender como o som, da mesma forma que um oleiro modela o barro, nos molda e esculpe por dentro e por fora. Dependendo das ondas e de outras características, os sons podem ter um efeito de positivo ou negativo, de peso ou de leveza. O som é energia que pode ser organizada em formas, padrões, figuras e proporções matemáticas, assim em música, fala e expressões de agonia e alegria. O som é o que nossos ancestrais chamavam de ‘o início’. Ele é o Om do Oriente e o Verbo do Ocidente. O som pode formar figuras geométricas complexas. Hans Jenny engenheiro e médico suíço, criou,  por exemplo, vibrações em cristais através de impulsos elétricos e as transmitiu para uma chapa ou uma corda. Ele também produziu figuras oscilantes em líquidos e gases. É importante fixar que a palavra falada e ouvida emitida pela voz humana é verdadeiramente musical. Ela contém uma condição melódica, ela é rítmica. Se você gravar sua voz, por exemplo, quanto fala no telefone. Você vai constar que há frases musicais – dentro das quais pode-se sentir a pulsações de um ritma que influencia o ritmo do pensamento e do comportamento. Todos nós precisamos ser ouvidos. Sabendo que somos ouvidos, começamos a amadurecer desenvolvendo idéias que irão prender a atenção dos ouvintes. Alfred Tomatis observa que Jesus conhecia o poder da audição. Para ele Jesus incorporava o Verbo – o logos, o som perfeito. E a advertência de Jesus: “Aquele que tem uma orelha, deixai-o ouvir” – mostrando uma profunda compreensão do papel do ouvido e da voz na unificação da mente, corpo e espírito.
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